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Vida longa
Por Rosângela Alvarenga   

Dia desses eu estava a conversar com um amigo próximo; falávamos das agruras de donos e donas de casa: lava-louça, arruma cama, põe comida pro gato, limpa o sanitário do mesmo, chama o bombeiro, e infindáveis etecéteras. É claro que a minha pia da cozinha estava o caos e nós dois com uma preguiça imbatível.

Foi aí que, de repente, lembrei-me de um episódio, digamos, bizarro, que ocorreu um dia, há muitos anos atrás. Meu filho ainda era uma criança e morava comigo, uma amiga mais uma empregada inteligente e culta que vinha na segunda feira e se ia na sexta. Praticava a função de empregada doméstica por escolha pessoal bem sedimentada: era muito feliz nessa profissão.

Pois, éramos todos jovens ainda, e a casa vivia cheia de amigos, copos, música, cinzeiros. Nós cozinhávamos no fim de semana. Aí fazíamos pratos especiais para nossos convivas, com temperos exóticos e pratos mais sofisticados. Resultado: na segunda feira a pia estava um horror de louça, embora limpássemos tudo antes de colocar na pia e encher com água e detergente para facilitas a limpeza das partes mais grudadas - na 2ª feira.

E foram anos de segundas feiras como essas.

Um dia, acordamos sonolenta e a cozinha estava quieta. Nada de barulho de lavagem de louça que também servia para nos acordar, bateção de portas de armários na cozinha ou barulho de máquina de lavar ligada. Olhamos, procuramos, e por fim vimos um singelo bilhete pregado com durex na porta da geladeira:

“LIMPEM VOCÊS MESMAS ESSA BAGUNÇA TODA”

Quem escreveu nunca mais voltou ou telefonou.

Hoje, rimos muito ao lembrar, gargalhamos. Mas o fio de memória é implacável, junto com o bilhete, veio à lembrança de quando meu filho foi morar na casa do pai dele, por motivos muito justos e nós dois, os pais, em pleno acordo de que isso era o melhor para ele. E os dois anos que eu e minha amiga sofremos de nó no peito e na barriga e choramos de falta dele, mesmo que ele viesse, como vinha nos fins de semana.

Hoje, tudo isso passou, ele é adulto e independente, e esteve recentemente a visitar essa amiga que não mora mais no Rio de Janeiro há anos. Nunca comentamos com ele nosso choro e dor. Mas. Tudo passou. E hoje se contarmos o tempo que todos já vivemos na vida, esses dois episódios não passarão de alguns quadros retirados de um rolo de filme muito, muito longo, que todo mundo que viu, mesmo nós, vai achar a vida tão curta – passou tão rápido. A vida, mesmo de quem vive pouco, parece curta porque o passado, na sua misericórdia tudo engole. Mas a vida é tão longa que precisaríamos de várias enciclopédias para contar com sentimento todos os seus pedacinhos.

Ainda bem!