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O eu, a alma e a lei
Por Rosângela Alvarenga   

Há que diga, usando termos psicanalíticos, que o homem sofreu três feridas narcísicas: a primeira quando percebei que não era o centro do universo; a segunda quando descobriu que a Terra não é o centro do sistema solar, e a última, quando percebeu que não controla nem mesmo o que acontece no seu interior: seus próprios pensamento e sentimentos. Esta última, obra da Psicanálise.

 

A Psicanálise se distingue de outras técnicas de psicoterapia por se desviar do aconselhamento, da catarse, das "terapias de conversa", por se apresentar mais como uma “terapia de relacionamento" já que o instrumento de trabalho do psicanalista é o próprio relacionamento que se estabelece entre ele e seu analisando chamado de “transferência", e é através da repetição dos padrões de relacionamento que o paciente apresenta ao analista que este vai poder fazer seus esclarecimentos. É na vivência, e não só na conversa, que ocorre a Psicanálise.

Até hoje me perguntam qual é a diferença entre Psicanálise e a Psicologia; se sou analista ou psicóloga, psiquiatra ou terapeuta, assim, puramente.

É claro que não sou eu que vou esclarecer assunto tão delicado. Mas uma vez fui morar numa cidade no interior de Minas Gerais e ninguém nem os médicos sabiam o que era Psicanálise. Assim fui convidada para escrever um artigo para o jornal da cidade.

Fazendo um ultra resumo desse escrito, eu disse que no decorrer do nosso desenvolvimento psicológico, podemos distinguir duas forças principais. Uma delas é criativa, selvagem, peculiar, intuitiva, autoafirmativa, orgulhosa de si, que parece proceder do coração e ser o alimento da alma. Quando estamos sintonizados com esta força, nossos olhos brilham, o coração se abre, e somos pura coragem, ardor, integridade.

Nestas horas, temos desejos. Almejamos para nós uma vida rica em experiências e emoções, e nos sentimos aptos a consegui-la. Podemos dizer que já nascemos com esta força, que ela sempre esteve lá, no centro do nosso coração (a alma).

A outra força é bem diferente. Esta é despertada pelos nossos contatos com o mundo externo, desde que nascemos. É a mediadora entre nós e os outros, entre nós e o mundo. De fora recebemos instruções sobre horários adequados, comportamentos adequados, perigos e áreas de facilidade. Primeiro no lar, depois no grupo e na cultura. Aos poucos, formam-se padrões em nossa mente, nossos modelos de certeza e adequação (a Lei). Cada vez que surge uma nova questão consultamos este nosso padrão para saber o que nela consideramos certo ou errado, bom ou mau. Sem esta segunda força torna-se difícil ou até impossível o nosso convívio na sociedade. É esta força que vai nos instrumentar para a realização dos nossos desejos.

Uma é uma força motriz, e a outra é uma força maleável, mediadora e propiciadora. Uma é como um rio e a outra é como uma roda d’água.

Se operam em harmonia, maravilha, grades realizações. Se entram em conflito... neurose, angústia, insatisfação, perda da alma ou perda de freios. Se a força maleável não for suficientemente amorosa e tolerante, a alma pode se rebelar e declarar guerra, fazendo a pessoa se entregar a de excessos de qualquer tipo. Violência, drogas, álcool, fanatismo religioso, comidas pouco saudáveis, relacionamentos prejudicais ou qualquer tipo de transgressão deliberada.

Se a alma for ferida muito cedo por causa da tirania da força maleável – a Lei, que parece vir do mundo externo – a pessoa é aquela que se sente abafada, apertada, agoniada por dentro, com uma saudade muito profunda de alguma coisa que não sabe precisar; com enorme desejo de viver, mas se mantém ali, no cativeiro, até por mede de, ao se soltar, cair irresistivelmente nos excessos.

Mas todo conflito que perdura é porque há um fator equilibrante. Este fator é o que se costuma chamar de Eu, que é aquilo que em nós capaz de consciência.

Algo em nós é capaz de tomar consciência da situação destas duas forças e intervir na contenda. Esse algo é capaz de tomar uma decisão e promover a ação. Sim, pois nada muda realmente sem uma ação que testemunhe e avalize a percepção interna (do Eu). O Eu é justamente quem age; por isso o pronome é o sujeito do verbo, da ação.

Graça a ele é que temos a opção de tomar a rédea da nossa própria vida e influir no nosso destino. Caso contrário, os outros decidirão por nós, e nós, que já não podemos mais nos livrar da consciência, ficaremos com a desconfortável sensação de estar passando a vida em branco, de ser mais um número na massa, sem rosto ou coluna vertebral. Sem falar em consequências mais graves.

O Eu é o nosso dom e a nossa obrigação. É a nossa questão, nosso ser ou não ser. A tomada de consciência começa com a percepção de que Eu não sou a minha alma nem a Lei. Que eu não sou minha mãe nem meu pai. Que Eu sou Eu.

A Psicanálise é um dos instrumentos de que podemos dispor para administrar favoravelmente essa contenda.