| A Formiguinha e a Neve |
| Por Rosângela Alvarenga |
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São tantas tão variadas histórias que povoaram a minha fantasia e imaginação durante tantos anos, tantos assuntos. Eram, como essa, histórias vindas de vários países do mundo, como essa mesmo, da formiguinha – aqui não tem neve, pelo menos não para entrar numa história infantil. Foi uma viagem me lembrar do prazer que eu tinha em aprender com estas histórias, com as perguntas de Narizinho, Pedrinho, Emília e o Visconde; as ponderações da Dona benta e da Tia Nastácia, do Sítio do Pica-pau Amarelo. De vez em quando todo mundo discutia; falava-se de quase tudo: fábulas europeias, folclore brasileiro, matemática, Geografia, mitologia grega, Enfim que leu se regalou (verbo muito usado na época). Mas porque estou contando isso aqui? Porque fui então, como é meu hábito quando algo me chama a atenção, fazer uma modesta – modesta mesmo- pesquisa sobre o assunto. Monteiro Lobato, que se revelou na biografia da Wikipédia uma pessoa bem mas controversa e inquieta do que o narrador sensato, criativo e amoroso dos livros. Normal: ele viveu nesse mundo, e não naquele. E quis saber de onde vinha esta específica história da formiguinha com a neve. Peguei no Google e lá fui, incansavelmente, por várias vias. Não encontrei um autor, mas várias interpretações. E o que me chamou a atenção foi exatamente como os diferentes escritores terminavam a história. Afinal, na minha memória, a formiguinha conseguia soltar o seu pezinho. Mas eu não me lembrava como. Lembrava que ela pedia a um a sequencia de seres ou coisas que se diziam impedidos por alguém ou algo que era mais forte. E ela seguia do para o mais do que aquele com quem falara. Na versão do Monteiro Lobato, que encontrei num site que dizia ser esta original, ela começava pela neve: “Ó neve valente que meus pés prende! Numa outra versão, encontrei: “Ó Sol, tu que é tão forte, derrete a neve que prende o meu pezinho”!”. E por aí ia, até que no fim nas versões que contei, exceto na de Lobato, ela chega ao mais forte, Deus, que a leva para “onde não há inverno, onde o sol brilha sempre, e onde os campos estão sempre cobertos de flores!" O fim de Lobato é diferente. “Ó Deus Valente que pode com o homem que caça a onça que devora o cachorro que pega o gato que come o rato que fura a parede que para o vento que desmancha a nuvem que esconde o sol que derrete a neve que meus pés prende! Deus respondeu: -Formiguinha, acaba com essa história e vai furtar.” Depois vêm os comentários da turma, que são hilários e esclarecedores: Narizinho estranha porque as formigas são vistas como ladras, e Dona benta esclarece que aí se vê os dedos das contadeiras de histórias, que em geral eram donas de casa, cozinheiras, para quem as formigas invadem a casa para pegar açúcar. Já falei demais e para terminar, mais um ponto me chamou a atenção: A solução para a formiguinha não é esperar que algum milagre externo resolva o seu problema. Toma a sua leve bronca e é aconselhada e resolver sozinha seu problema, porque ela pode. Isso vale a história inteira. |



Outro dia acordei pensando numa musiquinha que eu cantava quando criança, sozinha ou com minhas irmãs que era: ...”Ó Sol que derrete a neve, que prende o meu pezinho...” Lembrei que fala era num tom de humilde súplica e desamparo. É claro que estou falando da historinha infantil da formiguinha que fica com o pé preso na neve. Imediatamente me lembrei que da história inteira, que li na coleção infantil escrita por Monteiro Lobato. Meu pai comprou a coleção completa na nossa infância, e eu li e reli todos os livros várias vezes. As ilustrações eram de André Leblanc, em preto e branco, e a capa verde escura.
Psicanalista e Astróloga
