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No admirável Mundo Novo/ Na era de Aquário
Por Rosângela Alvarenga   

No admiravel mundo novoHá uma espécie de alegria, de sensação de vitória neste admirável mundo novo no qual estamos entrando. Estamos apenas começando uma fase de globalização e equalização das coisas e gentes. Agora, mais do que nunca, o padrão geral toma forma e diminui as diferenças, permitido pela tecnologia e pela comunicação de massa. O *Big Brother, dominador do livro de Aldous Huxley não é uma invenção. É um espectro real.

 Todo mundo quer ser bonito, alto, magro, forte, inteligente e para sempre jovem, para além de todos os males e feiuras. Se não quer é por que ainda não sabe que quer. E assim vamos, mexendo na genética, escolhendo embriões, adicionando à nossa ciência todas as magias e terapias antigas; todos os remédios, quer dizer, o que leva de volta ao meio, à média. Não podemos mais nem ficar tristes ou realizar um luto no tempo necessário: tomamos antidepressivos e outras droga legais para voltar a um rápido e produtivo bem estar.

Sinto desconforto em pensar que daqui a pouco não haverá meio de o sujeito se esconder, ficar na sua, ter liberdade de pensar e achar outra coisa que não o pensamento fruto das melhores cabeças pensantes do planeta reunidas, num tempo de alto poder de comunicação de massa. De todas as nacionalidades, da nata do que o ser humano pode pensar, será definido um padrão, considerado o melhor. Padrão este que já está tomando forma, como eu já disse. O estar bem, sadio, normal, será um padrão em princípio difícil de se colocar à parte, tal a sua excelência.

Sempre desconfiei de padrões, dessa busca quadrada de perfeição. Quando o sujeito nascer, terá sido tratado geneticamente para ter as melhores possibilidades de desempenho. Depois, chances iguais para todos de estudo, apoio psicológico, desenvolvimento das habilidades pessoas, até virar um adulto muito parecido com todos os outros.

Um patrão pode vigiar os empregados com micro câmeras escondidas. Pais podem vigiar os filhos e vice versa e por aí vai. A mútua espionagem já está se tornando real e imperceptível na sua semente de inversão: criamos uma nova prisão, lhe chamamos de liberdade e todo mundo acredita.

E o que vai ficar faltando? Eu não sei nem se vai ficar faltando alguma coisa, mas me parece que vai ficar faltando o indivíduo, o indivisível o peculiar, o errado, o troncho, o que combina com o inesperado que acontece sempre no Universo inteiro pra ninguém ficar pensando que é o próprio Deus, esse símbolo que foi nomeado de várias maneiras apenas para lembra que há muita coisa superior a nós, seres humanos ou não, no Universo em que habitamos.

Onde está o Amor nessa sociedade de robôs? Representado por sentimentos sociáveis para com o próximo semelhante? E o dessemelhante? Que ninguém se iluda: o dessemelhante marcará a sua presença sempre, nem que tenham que ocorrer pequenas ou grandes catástrofes, digamos, naturais. Ou artificiais. Bem, toda essa visão futura não passa de um sonho, ainda. Mas as pegadas do animal já são visíveis, e os caçadores já as encontraram. E vão segui-las.

A humanidade anda devagar, na Terra. Sempre pensamos que o Grande Fim está ali, na próxima esquina da nossa vida. Que seremos testemunhas do Holocausto Final. Mas qual. Já presenciamos, coletivamente, muitos holocaustos. E temos esperanças de acabar com a nossa ignorância. Mas agora creio que já dá pra perceber que a ignorância é tanta que não dá pra encontrar o fim dela numa simples mudança de estação. O mundo não acaba nem muda tanto, a cada retorno do verão ou do inverno. Não dá pra fugir do esforço individual, da responsabilidade de cada um consigo mesmo, da luta contra toda a ignorância e opacidade dentro de cada um. Enfim, a Era de Aquário, da tecnologia e da comunicação coletiva não vai nos trazer a Liberdade, como a Era de Peixes não a trouxe também, e assim as eras anteriores. Será apenas um modo diferente de viver. Pensei: talvez proporcionando melhores condições do indivíduo se libertar da sua negra ignorância? Não sei. Em nada ela difere do período da invenção da roda ou da escrita, ou do começo da agricultura. Não sei se é confortador ou não saber que algumas pessoas naqueles mais tempos antigos sabiam que ainda tínhamos muito feijão pra comer.

* Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa) é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse "futuro" criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada "soma". As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe.