| Às 17 horas |
| Por Rosângela Alvarenga |
|
Me deitar um pouco vai dar uma culpa horrível. Que hora é essa, para mim sempre difícil? Não é à toa que os sábios ingleses inventaram o chá das cinco! A que horas começar a acender as luzes? Quantas? Quais? Para quem mora só, como eu, essa hora clama por uma disciplina, um ritual. Não posso deixar de citar o Pessoa, meu íntimo, num trecho de uma ode não exatamente à Noite, mas à quando a Noite vem: “Vem, noite antiquíssima e idêntica”. ...Por esta hora que não sei como viver,... Eu também não sei. Penso nos operários, que trabalham com horários fixos, para quem talvez essa hora seja libertadora, a salvação de deixar o trabalho e ir para casa; para um encontro oculto; eventualmente ou religiosamente tomar um chopinho no bar com os amigos antes de se recolher. Mas chopinho ou o que o valha, com o cotovelo encostado do balcão engordurado dos lugares próximos de onde se trabalha, dá mau humor e de dor de cabeça. Não. Nessa hora, em lugar do constrangimento, do entorpecimento forçado; a nobreza, a degustação. Arruma-se a mesa com a melhor louça; pãezinhos e bolinhos em cestos cobertos por panos bordados, açúcares brilhando sobre uns biscoitinhos; guardanapos e o bule, centro da elegância chegando aromático, treinando nosso olfato, sem pressa, distraidamente, entre conversas amenas; rindo, até que a noite nos envolveu e nos salvou daquele hiato desconfortável de tempo já se foi. Há anos tento instituir este pequeno ritual salvador da minha perdição crepuscular. Eu chego lá. |



Agora são 17 horas. As trágicas 5 horas da tarde. A hora de fazer o que? Ligar para a Terezinha? Ir à padaria, tomar banho? Fazer umas comprinhas ali no supermercado? Ou pura simplesmente esperar passar o tempo, até às 6 horas, talvez; dissimulando o não estar fazendo nada?
Psicanalista e Astróloga
